Divindades astecas e maias: dois conjuntos distintos
Duas tradições vizinhas, frequentemente confundidas, com calendários compartilhados e panteões próprios.
Tratamentos apressados costumam juntar mexicas e maias sob um rótulo único, como se formassem uma só cultura com um só conjunto de deuses. A aproximação não se sustenta. São povos de regiões distintas, com línguas sem parentesco entre si, histórias políticas próprias e figuras divinas que não se traduzem umas nas outras. Há, sim, um repertório compartilhado por boa parte da Mesoamérica, incluindo formas de contar o tempo e temas cosmológicos recorrentes, e é esse repertório comum que gera a impressão enganosa de unidade. Separar o que é partilhado do que é específico é o primeiro trabalho de quem estuda esse material.
Dois mundos, não um
Os mexicas, comumente chamados de astecas, tinham como centro Tenochtitlan, na bacia do México, e sua língua era o náuatle. O auge de seu domínio regional é tardio na história mesoamericana, situado nos dois séculos que antecedem a chegada dos europeus. O termo "asteca" é de uso moderno generalizado e abrange também povos vizinhos de língua náuatle; "mexica" designa de modo mais preciso o grupo de Tenochtitlan.
Os povos maias ocupam outra área: a península de Yucatán, a Guatemala, Belize, parte de Chiapas e do oeste de Honduras. Falam dezenas de línguas aparentadas entre si, da família maia, como o k'iche', o yucateco, o tzotzil e o q'eqchi'. Sua trajetória escrita é muito mais longa: as inscrições do período clássico, gravadas em pedra e em cerâmica, antecedem em séculos o poder mexica e hoje podem ser lidas em boa medida. Um leitor que espere encontrar as mesmas figuras nos dois conjuntos ficará desorientado.
O que de fato é compartilhado
A herança comum mesoamericana é real e importante. Ambas as tradições usam uma contagem ritual de 260 dias, chamada tonalpohualli em náuatle e tzolk'in em terminologia derivada do maia yucateco, combinada com um ano de 365 dias. Ambas dão ao milho posição central na alimentação e no pensamento sobre a origem dos seres humanos. Ambas praticam um jogo de bola com dimensão ritual, conhecem escrita e registro em livros dobrados e organizam o cosmos em níveis, com direções cardeais associadas a cores e atributos.
Compartilhar estrutura, contudo, não é compartilhar panteão. Duas tradições podem organizar o ano da mesma maneira e dedicar cada período a divindades inteiramente diversas. O guia sobre calendários e festas desenvolve essa distinção entre a moldura e o conteúdo.
Figuras centrais do lado mexica
Huitzilopochtli é a divindade tutelar de Tenochtitlan, associada à guerra e à migração fundadora do grupo. Tláloc responde pela chuva e pelas tempestades, e seu culto é muito mais antigo que a própria cidade. Os dois dividiam os santuários gêmeos no topo do Templo Maior, arranjo descrito em fontes do século XVI e confirmado pelas escavações no centro da Cidade do México, cujos achados estão em grande parte no Museu Nacional de Antropologia.
Tezcatlipoca aparece ligado à noite, ao conflito e ao destino, com papel decisivo nas narrativas sobre as eras do mundo. Quetzalcóatl, a serpente emplumada, é figura de longa duração na Mesoamérica central, associada ao vento, ao saber e à criação da humanidade atual. A Leyenda de los Soles e os Anais de Cuauhtitlán transmitem a sequência das eras anteriores e sua destruição; a Histoyre du Mechique preserva o relato em que o corpo de Tlaltecuhtli é dividido para formar o mundo. Somam-se figuras como Xipe Totec, Chalchiuhtlicue, Mictlantecuhtli e Coatlicue, cada uma com ciclo festivo próprio no calendário descrito por Sahagún e por Durán.
Quase tudo chega filtrado pelo século XVI
O Códice Florentino, organizado por Bernardino de Sahagún, é a fonte mais volumosa sobre religião mexica, redigido em náuatle e espanhol com colaboração de informantes indígenas. Diego Durán, na Historia de las Indias de Nueva España, reúne outro conjunto extenso. Ambos eram religiosos católicos, escreviam décadas após a conquista e tinham entre seus objetivos identificar práticas a serem suprimidas. Isso não invalida o material, que é insubstituível, mas exige atenção ao vocabulário adotado e às comparações que os autores fazem com categorias europeias.
Do lado maia, a perda documental foi severa. Diego de Landa, na Relación de las cosas de Yucatán, registra ele próprio a destruição de livros indígenas realizada sob sua responsabilidade, e a mesma obra é hoje uma das principais fontes escritas sobre o calendário e o culto yucatecos. Trabalhar com esse texto significa depender de quem participou da destruição daquilo que ele descreve.
Figuras centrais do lado maia
O Popol Vuh, texto k'iche' posto em escrita alfabética no século XVI, é a narrativa mais completa que sobreviveu. Nele, as sucessivas tentativas de criar seres humanos culminam na formação a partir do milho; os gêmeos Hunahpu e Xbalanqué enfrentam os senhores de Xibalbá, o mundo inferior, e derrotam a figura arrogante de Vucub Caquix; Xmucané e Xpiyacoc figuram entre os avós primordiais. É preciso lembrar que esse é um texto de uma comunidade específica das terras altas, não um resumo válido para toda a área maia.
Nos códices e nas inscrições aparecem outras figuras: Itzamná, associado ao saber e à autoridade celeste; Chaac, ligado à chuva; K'inich Ajaw, ao sol; K'awiil, ao raio e à linhagem régia; e o deus do milho, uma das presenças mais frequentes na arte do período clássico. Ixchel é nomeada por Landa e relacionada a partos e cura, mas sua correspondência com as deusas representadas nos códices é discutida. De fato, os especialistas costumam designar divindades dos códices por letras convencionais, justamente porque a ligação entre as imagens e os nomes transmitidos por fontes coloniais nem sempre pode ser estabelecida.
| Esfera | Lado mexica | Lado maia |
|---|---|---|
| Chuva | Tláloc | Chaac |
| Sol | Tonatiuh | K'inich Ajaw |
| Milho | Centéotl | Deus do milho, sem nome único consolidado |
| Mundo dos mortos | Mictlán, com Mictlantecuhtli | Xibalbá, com seus senhores |
| Contagem ritual | Tonalpohualli, de 260 dias | Tzolk'in, de 260 dias |
| Divindade tutelar de capital | Huitzilopochtli, em Tenochtitlan | Padroeiros específicos de cada cidade |
A tabela aproxima funções, e só isso. Colocar dois nomes lado a lado não significa que as figuras tenham a mesma história, o mesmo culto ou o mesmo lugar na ordem do mundo. O risco é o mesmo das listas de equivalência discutidas no guia sobre sincretismo e combinação.
Os livros que restaram
Da tradição maia sobreviveram pouquíssimos códices pré-hispânicos, conhecidos pelas cidades onde foram depositados: o Códice de Dresden, o Códice de Madri e o Códice de Paris. O primeiro contém tabelas astronômicas de notável precisão, incluindo o ciclo de Vênus, e rituais associados. Do lado mexica e da Mesoamérica central, o Códice Borgia traz conteúdo adivinhatório e calendárico de tradição pré-hispânica, com origem geográfica discutida; o Códice Borbônico e o Códice Mendoza combinam registro pictórico indígena com anotações do período colonial, este último voltado sobretudo a história e tributos. Os Livros de Chilam Balam, redigidos em maia yucateco com alfabeto latino ao longo de vários séculos, conservam material calendárico e profético já em contexto colonial.
Comunidades vivas, não capítulo encerrado
Milhões de pessoas falam línguas maias atualmente, na Guatemala, no México, em Belize e em Honduras, além das comunidades migrantes. Práticas rituais seguem existindo, e em regiões das terras altas guatemaltecas a contagem de 260 dias continua sendo mantida por especialistas do calendário. Tratar essas tradições no passado, como se pertencessem apenas à arqueologia, é um erro factual antes de ser um problema de postura.
O mesmo vale para as comunidades de língua náuatle no México. Os guias sobre tradições vivas e sobre respeito cultural no estudo detalham os cuidados adotados nas perguntas da rodada mesoamericana do quiz: nomes escritos conforme as convenções atuais das próprias comunidades sempre que possível, ausência de julgamento sobre práticas antigas e distinção clara entre o que a fonte registra e o que permanece incerto.
Fontes de apoio
- Popol Vuh — narrativa k'iche' sobre a criação, os gêmeos e os senhores de Xibalbá.
- Bernardino de Sahagún, Códice Florentino — compilação bilíngue sobre a vida e a religião mexicas.
- Diego Durán, Historia de las Indias de Nueva España — outro relato extenso do século XVI sobre festas e divindades.
- Diego de Landa, Relación de las cosas de Yucatán — descrição do calendário e do culto yucatecos, escrita por quem destruiu livros locais.
- Códice de Dresden, Códice de Madri e Códice de Paris — os códices maias pré-hispânicos preservados.
- Códice Borgia, Códice Borbônico e Códice Mendoza — material calendárico, adivinhatório e administrativo da Mesoamérica central.
- Leyenda de los Soles, Anais de Cuauhtitlán, Histoyre du Mechique, Livros de Chilam Balam e as inscrições maias do período clássico.